[MOD-MAX] • Trilha Eletromagnetismo • Teoria Eletromagnética Fundamental

Fundamentos, Equações de Maxwell e Ondas Planas

Da síntese eletrodinâmica das 4 equações e corrente de deslocamento à dedução rigorosa da equação de onda, transversalidade eletromagnética (TEM), atenuação ôhmica, profundidade pelicular, Teorema de Poynting e estados de polarização.

Docente: Prof. Marcelo Eduardo Vieira Segatto
Afiliação: Departamento de Engenharia Elétrica (DEE) • UFES
Laboratórios: LabTel • IN-FOTON

1. Introdução e o Espectro Eletromagnético

A síntese teórica que unificou eletricidade, magnetismo e óptica em uma única descrição vetorial contínua

A formulação canônica do eletromagnetismo macroscópico por James Clerk Maxwell (1865) consolidou a maior síntese teórica da física no século XIX. Maxwell unificou fenômenos elétricos, magnéticos e ópticos através de um conjunto consistente de equações diferenciais parciais vetoriais acopladas, prevendo que a luz é uma oscilação eletromagnética que se propaga no espaço livre na velocidade universal $c = 1/\sqrt{\mu_0 \varepsilon_0} \approx 3 \times 10^8\text{ m/s}$.

Epistemologia de James Clerk Maxwell

"O estudante que usa equipamentos caseiros, que sempre dá errado, muitas vezes aprende mais do que quem usa instrumentos cuidadosamente ajustados, nos quais ele pode confiar e que não ousa desmontar."

"A ignorância completamente consciente é o prelúdio de todo avanço real na ciência."

O Espectro Eletromagnético

Figura 2.1: O espectro eletromagnético contínuo — distribuição das bandas de frequência (de ELF/RF aos raios gama) e suas aplicações em telecomunicações, radar e fotônica.


2. As Equações de Maxwell no Domínio do Tempo

Formas integral e diferencial e a necessidade matemática da Corrente de Deslocamento

Lei Física Forma Integral Forma Diferencial Pontual
Faraday-Lenz $$\oint_C \vec{E}\cdot d\vec{l} = -\int_S \frac{\partial \vec{B}}{\partial t}\cdot d\vec{S}$$ $$\nabla \times \vec{E} = -\frac{\partial \vec{B}}{\partial t}$$
Ampère-Maxwell $$\oint_C \vec{H}\cdot d\vec{l} = \int_S \left(\vec{J} + \frac{\partial \vec{D}}{\partial t}\right)\cdot d\vec{S}$$ $$\nabla \times \vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial \vec{D}}{\partial t}$$
Gauss Elétrica $$\oint_S \vec{D}\cdot d\vec{S} = \int_V \rho_v \, dv$$ $$\nabla \cdot \vec{D} = \rho_v$$
Gauss Magnética $$\oint_S \vec{B}\cdot d\vec{S} = 0$$ $$\nabla \cdot \vec{B} = 0$$

A Corrente de Deslocamento e a Continuidade da Carga

Tomando a divergência do rotacional na Lei de Ampère estática ($\nabla \times \vec{H} = \vec{J}$), a identidade vetorial $\nabla \cdot (\nabla \times \vec{A}) \equiv 0$ exigiria $\nabla \cdot \vec{J} = 0$. No entanto, em regime dependente do tempo, a Equação da Continuidade impõe a conservação da carga elétrica:

$$\nabla \cdot \vec{J} + \frac{\partial \rho_v}{\partial t} = 0$$

Substituindo a Lei de Gauss ($\rho_v = \nabla \cdot \vec{D}$), Maxwell introduziu o termo que faltava:

$$\nabla \cdot \vec{J} + \frac{\partial}{\partial t}(\nabla \cdot \vec{D}) = \nabla \cdot \left(\vec{J} + \frac{\partial \vec{D}}{\partial t}\right) = 0 \implies \nabla \times \vec{H} = \vec{J} + \frac{\partial \vec{D}}{\partial t}$$

O termo $\vec{J}_d = \frac{\partial \vec{D}}{\partial t}$ representa a densidade de corrente de deslocamento, permitindo que campos magnéticos sejam excitados no espaço livre por variações temporais do campo elétrico, mesmo na ausência de portadores materiais de carga.

Equações de Maxwell em Coordenadas Retangulares

Expandindo o operador rotacional cartesiano, obtemos o sistema desacoplado em 6 equações escalares fundamentais:

Componentes da Lei de Faraday: $$\frac{\partial E_z}{\partial y} - \frac{\partial E_y}{\partial z} = -\mu\frac{\partial H_x}{\partial t}$$ $$\frac{\partial E_x}{\partial z} - \frac{\partial E_z}{\partial x} = -\mu\frac{\partial H_y}{\partial t}$$ $$\frac{\partial E_y}{\partial x} - \frac{\partial E_x}{\partial y} = -\mu\frac{\partial H_z}{\partial t}$$
Componentes de Ampère-Maxwell: $$\frac{\partial H_z}{\partial y} - \frac{\partial H_y}{\partial z} = J_x + \varepsilon\frac{\partial E_x}{\partial t}$$ $$\frac{\partial H_x}{\partial z} - \frac{\partial H_z}{\partial x} = J_y + \varepsilon\frac{\partial E_y}{\partial t}$$ $$\frac{\partial H_y}{\partial x} - \frac{\partial H_x}{\partial y} = J_z + \varepsilon\frac{\partial E_z}{\partial t}$$

3. Relações Constitutivas e Condições de Contorno

Resposta eletromagnética dos materiais e continuidade de campos em fronteiras físicas

Para fechar analiticamente o sistema das equações de Maxwell, introduzem-se as relações constitutivas que modelam macroscopicamente a polarização dielétrica, a magnetização atômica e a condução ôhmica dos materiais:

Equações Constitutivas em Meios Simples (LIH — Linear, Isotrópico e Homogêneo)

$$\vec{D} = \varepsilon\vec{E} = \varepsilon_0\varepsilon_r\vec{E}, \qquad \vec{B} = \mu\vec{H} = \mu_0\mu_r\vec{H}, \qquad \vec{J} = \sigma\vec{E}$$

Em meios complexos, $\varepsilon$, $\mu$ e $\sigma$ podem tornar-se tensores (anisotropia), funções da frequência (dispersão cromática) ou dependentes da intensidade do campo (óptica e RF não-lineares).

Condições de Contorno Eletromagnéticas

Figura 2.2: Construção geométrica da pílula de Gauss e contorno de Stokes em uma interface material 1–2.

Componentes Tangenciais

$$E_{1t} = E_{2t} \iff \hat{n}_{12} \times (\vec{E}_1 - \vec{E}_2) = \vec{0}$$ $$H_{1t} - H_{2t} = J_s \iff \hat{n}_{12} \times (\vec{H}_1 - \vec{H}_2) = \vec{J}_s$$

Componentes Normais

$$D_{1n} - D_{2n} = \rho_s \iff \hat{n}_{12} \cdot (\vec{D}_1 - \vec{D}_2) = \rho_s$$ $$B_{1n} = B_{2n} \iff \hat{n}_{12} \cdot (\vec{B}_1 - \vec{B}_2) = 0$$

Fronteira com Condutores Elétricos Perfeitos (PEC)

No interior de um condutor ideal ($\sigma \to \infty$), os campos internos anulam-se estritamente ($\vec{E}_2 = \vec{0}$, $\vec{H}_2 = \vec{0}$). Logo, na superfície externa do condutor:

$$E_{1t} = 0 \quad \text{(campo elétrico é puramente normal)}, \qquad D_{1n} = \rho_s$$ $$B_{1n} = 0 \quad \text{(campo magnético é puramente tangencial)}, \qquad H_{1t} = J_s$$

4. Dedução Analítica da Equação de Onda Eletromagnética

A marcha matemática passo a passo que revelou a velocidade da luz e a natureza das ondas

A dedução da equação de onda parte da aplicação do operador rotacional em ambos os membros da Lei de Faraday:

Passo a Passo da Dedução Vetorial

1. Rotacional da Lei de Faraday:

$$\nabla \times (\nabla \times \vec{E}) = -\nabla \times \frac{\partial \vec{B}}{\partial t} = -\frac{\partial}{\partial t}(\nabla \times \vec{B})$$

2. Aplicação da identidade vetorial do Laplaciano:

$$\nabla(\nabla \cdot \vec{E}) - \nabla^2\vec{E} = -\mu\frac{\partial}{\partial t}(\nabla \times \vec{H})$$

3. Inserção da Lei de Ampère-Maxwell:

$$\nabla(\nabla \cdot \vec{E}) - \nabla^2\vec{E} = -\mu\frac{\partial}{\partial t}\left(\vec{J} + \varepsilon\frac{\partial\vec{E}}{\partial t}\right) = -\mu\frac{\partial \vec{J}}{\partial t} - \mu\varepsilon\frac{\partial^2\vec{E}}{\partial t^2}$$

4. Meio livre de cargas livres e de correntes ($\rho_v = 0 \implies \nabla \cdot \vec{E} = 0$, $\vec{J} = \vec{0}$):

$$\nabla^2\vec{E} - \mu\varepsilon\frac{\partial^2\vec{E}}{\partial t^2} = \vec{0}$$

Velocidade Universal de Propagação

Comparando com a equação de onda d'Alembertiana clássica ($\nabla^2\psi - \frac{1}{v^2}\frac{\partial^2\psi}{\partial t^2} = 0$), identifica-se diretamente:

$$v = \frac{1}{\sqrt{\mu\varepsilon}} = \frac{1}{\sqrt{\mu_0\varepsilon_0}\sqrt{\mu_r\varepsilon_r}} = \frac{c}{\sqrt{\mu_r\varepsilon_r}}$$

No vácuo ($\varepsilon_r = 1$, $\mu_r = 1$):

$$c = \frac{1}{\sqrt{\mu_0\varepsilon_0}} = \frac{1}{\sqrt{(4\pi \times 10^{-7})(8{,}854187 \times 10^{-12})}} \approx 2{,}99792 \times 10^8\text{ m/s}$$

5. Ondas Eletromagnéticas Planas Uniformes (TEM)

Geometria transversal, ortogonalidade do triedro e a solução clássica de d'Alembert

Uma onda plana uniforme representa uma idealização fundamental na qual as frentes de onda (superfícies de mesma fase instantânea) constituem planos infinitos paralelos, e a amplitude dos campos é rigorosamente constante em toda a extensão transversal.

Onda Plana Uniforme

Figura 2.3: Frentes de onda planares paralelas propagando-se em espaço livre.

Triedro Fundamental TEM

Figura 2.4: O triedro vetorial ortogonal $(\vec{E}, \vec{H}, \vec{P})$ no modo TEM.

Propriedades Fundamentais dos Modos TEM

  • Transversalidade Eletromagnética: O campo elétrico $\vec{E}$ e o campo magnético $\vec{H}$ são perpendiculares entre si e à direção de propagação $\hat{a}_z$ ($E_z = 0$, $H_z = 0$).
  • Equações Reduzidas de Maxwell: Para $\vec{E} = E_x(z,t)\hat{a}_x$ e $\vec{H} = H_y(z,t)\hat{a}_y$: $$\frac{\partial E_x}{\partial z} = -\mu\frac{\partial H_y}{\partial t}, \qquad -\frac{\partial H_y}{\partial z} = \varepsilon\frac{\partial E_x}{\partial t}$$
  • Solução Geral de d'Alembert no Tempo: $$E_x(z,t) = f(z - vt) + g(z + vt)$$ onde $f(z - vt)$ é a onda progressiva ($+z$) e $g(z + vt)$ é a onda regressiva ($-z$).
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Simulação Numérica FDTD 1D das Equações de Maxwell

Veja a propagação no tempo das equações reduzidas acopladas de Maxwell em malha de Yee intercalada com condições de contorno absorventes (Mur ABC e PML).

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6. Regime Fasorial e Meios Dielétricos Sem Perdas

A formulação de Helmholtz, constante de fase e impedância intrínseca de onda

Para excitações harmônicas de frequência angular $\omega$, adota-se a convenção fasorial com fator temporal implícito $e^{j\omega t}$: $$e_x(z,t) = \Re\left[\dot{E}_x(z) e^{j\omega t}\right]$$ A equação de onda temporal reduz-se à Equação de Helmholtz Homogênea:

Equação de Helmholtz Unidimensional e Solução Analítica

$$\frac{d^2\dot{E}_x}{dz^2} - \gamma^2\dot{E}_x = 0$$ Em meio dielétrico ideal ($\sigma = 0$), a constante de atenuação é nula ($\alpha = 0$), resultando na constante de propagação puramente imaginária: $$\gamma = j\beta = j\omega\sqrt{\mu\varepsilon} = j\frac{\omega}{v} = j\frac{2\pi}{\lambda}$$ $$\dot{E}_x(z) = C_1 e^{-j\beta z} + D_1 e^{+j\beta z}, \qquad \dot{H}_y(z) = \frac{1}{\eta}\left[C_1 e^{-j\beta z} - D_1 e^{+j\beta z}\right]$$

Impedância Intrínseca do Meio ($\eta$)

$$\eta = \sqrt{\frac{\mu}{\varepsilon}} \quad [\Omega]$$ No vácuo absoluto ($\varepsilon_0, \mu_0$): $$\eta_0 = \sqrt{\frac{\mu_0}{\varepsilon_0}} \approx 120\pi \approx 376{,}73\,\Omega \approx 377\,\Omega$$ Em dielétrico não-magnético ($\mu_r = 1$): $$\eta = \frac{\eta_0}{\sqrt{\varepsilon_r}}$$
Estrutura Espaço-Temporal da Onda Plana TEM

Figura 2.5: Distribuição tridimensional dos campos $\vec{E}$ e $\vec{H}$ em fase em um meio sem perdas.


7. Propagação em Meios Materiais com Perdas Ôhmicas

A constante complexa de propagação, coeficiente de atenuação e defasagem intrínseca

Quando o meio material possui condutividade elétrica não-nula ($\sigma > 0$), os elétrons livres dissipam energia sob forma de calor por Efeito Joule ($\vec{J} = \sigma\vec{E}$). A equação de onda fasorial incorpora um termo complexo de perdas:

Constante de Propagação Complexa ($\gamma = \alpha + j\beta$)

$$\gamma = \sqrt{j\omega\mu(\sigma + j\omega\varepsilon)} = \alpha + j\beta$$ Separando as partes real e imaginária, deduzem-se as expressões exatas para todo meio macroscópico: $$\alpha = \omega\sqrt{\mu\varepsilon} \left\{\frac{1}{2}\left[\sqrt{1+\left(\frac{\sigma}{\omega\varepsilon}\right)^2}-1\right]\right\}^{\frac{1}{2}} \quad [\text{Np/m}]$$ $$\beta = \omega\sqrt{\mu\varepsilon} \left\{\frac{1}{2}\left[\sqrt{1+\left(\frac{\sigma}{\omega\varepsilon}\right)^2}+1\right]\right\}^{\frac{1}{2}} \quad [\text{rad/m}]$$ $$\eta = \sqrt{\frac{j\omega\mu}{\sigma + j\omega\varepsilon}} = |\eta| e^{j\theta_\eta} \quad [\Omega], \qquad 0 \le \theta_\eta \le 45^\circ$$

Campos Atenuados no Domínio do Tempo

Para onda progressiva no sentido $+z$:

$$\vec{E}(z,t) = A_1 e^{-\alpha z} \cos(\omega t - \beta z + \phi) \hat{a}_x$$ $$\vec{H}(z,t) = \frac{A_1}{|\eta|} e^{-\alpha z} \cos(\omega t - \beta z + \phi - \theta_\eta) \hat{a}_y$$

O campo decai exponencialmente pelo envelope $e^{-\alpha z}$, e o campo magnético fica defasado de $\theta_\eta$ (atrasado) em relação ao campo elétrico.


8. Regimes Limítrofes: Bons Condutores vs. Bons Dielétricos

A síntese clássica do Slide 32 do Prof. Segatto e a profundidade pelicular (Efeito Skin)

Bons Condutores $\left(\frac{\sigma}{\omega\varepsilon} \gg 1\right)$

$$\alpha \approx \beta \approx \sqrt{\frac{\omega\mu\sigma}{2}} = \sqrt{\pi f \mu \sigma}$$ $$\eta \approx \sqrt{\frac{\omega\mu}{\sigma}}\phase{45^\circ} = \sqrt{\frac{\omega\mu}{2\sigma}}(1 + j)$$ Profundidade Pelicular ($\delta$): $$\delta = \frac{1}{\alpha} \approx \sqrt{\frac{2}{\omega\mu\sigma}} = \frac{1}{\sqrt{\pi f \mu \sigma}}$$

Bons Dielétricos $\left(\frac{\sigma}{\omega\varepsilon} \ll 1\right)$

$$\alpha \approx \frac{\sigma}{2}\sqrt{\frac{\mu}{\varepsilon}}$$ $$\beta \approx \omega\sqrt{\mu\varepsilon}\left(1 + \frac{\sigma^2}{8\omega^2\varepsilon^2}\right)$$ $$\eta \approx \sqrt{\frac{\mu}{\varepsilon}}\left(1 + j\frac{\sigma}{2\omega\varepsilon}\right)$$

Curvas da Profundidade Pelicular

Figura 2.6: Profundidade pelicular ($\delta$) em função da condutividade do meio para frequências de 1 kHz a 10 GHz (Slide 33).

Efeito Skin em Condutores

Figura 2.7: Confinamento da densidade de corrente $\vec{J}$ na periferia de condutores em alta frequência (Efeito Skin).

Material $\sigma$ [S/m] $\varepsilon_r$ $\mu_r$ $\delta$ a 60 Hz $\delta$ a 1 GHz Regime Predominante
Cobre ($\text{Cu}$) $5{,}8 \times 10^7$ $1$ $1$ $8{,}53\text{ mm}$ $2{,}09\,\mu\text{m}$ Bom Condutor ($\sigma \gg \omega\varepsilon$)
Alumínio ($\text{Al}$) $3{,}5 \times 10^7$ $1$ $1$ $10{,}9\text{ mm}$ $2{,}69\,\mu\text{m}$ Bom Condutor ($\sigma \gg \omega\varepsilon$)
Água do Mar $4{,}0$ $81$ $1$ $32{,}5\text{ m}$ $7{,}96\text{ mm}$ Condutor em RF / Dissipativo em MW
Água Pura $10^{-4}$ $81$ $1$ $> 5\text{ km}$ $1{,}19\text{ m}$ Dielétrico com Baixas Perdas
Teflon (PTFE) $10^{-15}$ $2{,}1$ $1$ $\approx \infty$ $\approx \infty$ Dielétrico Quase Perfeito

9. Teorema de Poynting e Estados de Polarização

Densidade de fluxo de potência eletromagnética e rotação vetorial do campo elétrico

O Teorema de Poynting e Conservação de Energia

A conservação de energia eletrodinâmica em um volume $V$ delimitado por superfície fechada $S$ expressa-se por:

$$-\nabla \cdot (\vec{E} \times \vec{H}) = \vec{J}\cdot\vec{E} + \frac{\partial}{\partial t}\left(\frac{1}{2}\varepsilon E^2 + \frac{1}{2}\mu H^2\right)$$

onde $\vec{S} = \vec{E} \times \vec{H}$ [$\text{W/m}^2$] é o Vetor de Poynting Instantâneo. Em regime fasorial harmônico, a potência média temporal é:

$$\vec{S}_{\text{méd}} = \frac{1}{2}\Re\left\{\tilde{E} \times \tilde{H}^*\right\} = \frac{|E_0|^2}{2|\eta|} e^{-2\alpha z} \cos(\theta_\eta) \hat{a}_z \quad [\text{W/m}^2]$$
Estados de Polarização de Ondas Planas

Figura 2.8: Classificação dos estados fundamentais de polarização pelo locus traçado por $\vec{E}$ no plano transversal.

Tipos de Polarização

  • Linear ($\Delta\phi = 0$ ou $\pi$): As componentes estão em fase; a extremidade de $\vec{E}$ oscila em linha reta sobre um eixo fixo.
  • Circular ($E_{0x} = E_{0y}$, $\Delta\phi = \pm 90^\circ$): Amplitude constante girando em círculo:
    • RHCP (Destra): Rotação horária no sentido de propagação.
    • LHCP (Levógira): Rotação anti-horária no sentido de propagação.
  • Elíptica (Caso Geral): Amplitudes desiguais ou defasagens arbitrárias traçam uma elipse caracterizada pela Razão Axial ($AR$).

10. Exemplos Práticos de Engenharia Resolvidos

Aplicações analíticas com parâmetros reais de telecomunicações, comunicações submarinas e circuitos de RF

Exemplo 1: Onda de Telecomunicações no Ar (Wi-Fi 5 GHz)

Uma antena Wi-Fi irradia uma onda plana uniforme no ar ($\varepsilon_r = 1$, $\mu_r = 1$, $\sigma = 0$) em frequência $f = 5{,}0\text{ GHz}$. A amplitude do campo elétrico a certa distância é $E_0 = 10\text{ V/m}$.

Solução:

  • Velocidade: $v = c \approx 3 \times 10^8\text{ m/s}$.
  • Comprimento de onda: $\lambda = \frac{c}{f} = \frac{3 \times 10^8}{5 \times 10^9} = 0{,}06\text{ m} = 6{,}0\text{ cm}$.
  • Constante de fase: $\beta = \frac{2\pi}{\lambda} = \frac{2\pi}{0{,}06} \approx 104{,}72\text{ rad/m}$.
  • Amplitude magnética: $H_0 = \frac{E_0}{\eta_0} = \frac{10}{377} \approx 26{,}53\text{ mA/m}$.
  • Densidade de potência média: $S_{\text{méd}} = \frac{|E_0|^2}{2\eta_0} = \frac{100}{2 \times 377} \approx 0{,}1326\text{ W/m}^2 = 132{,}6\text{ mW/m}^2$.

Exemplo 2: Propagação e Perdas em Substratos Dielétricos de RF (FR-4 vs. Rogers RO4003C)

Em projetos de circuitos de micro-ondas, interconexões de alta velocidade e antenas desenvolvidos no DEE/UFES, a escolha do dielétrico define a atenuação do sinal. Analisa-se a propagação de uma onda plana nas frequências de $f_1 = 2{,}4\text{ GHz}$ (Wi-Fi/Bluetooth) e $f_2 = 5{,}0\text{ GHz}$ (Wi-Fi 5/6 e 5G) através de dois materiais:

  • FR-4 Standard: $\varepsilon_r = 4{,}4$, $\tan\delta = 0{,}020$, $\mu_r = 1$.
  • Rogers RO4003C de Alta Frequência: $\varepsilon_r = 3{,}55$, $\tan\delta = 0{,}0027$, $\mu_r = 1$.

Solução Analítica:

  • Regime: Como $\tan\delta \ll 1$ em ambos, tratam-se de dielétricos de baixas perdas com $\alpha \approx \frac{\pi f \sqrt{\varepsilon_r}}{c}\tan\delta$.
  • Atenuação a 2,4 GHz: No FR-4, $\alpha \approx 1{,}054\text{ Np/m} = 0{,}0916\text{ dB/cm}$. No Rogers RO4003C, $\alpha \approx 0{,}128\text{ Np/m} = 0{,}0111\text{ dB/cm}$.
  • Perda após 10 cm ($f = 2{,}4\text{ GHz}$): No FR-4 perde-se $0{,}92\text{ dB}$ (~19% da potência), enquanto no Rogers perde-se apenas $0{,}11\text{ dB}$ (~2,5%).
  • Perda após 10 cm ($f = 5{,}0\text{ GHz}$): Como $\alpha \propto f$, a atenuação sobe para $1{,}91\text{ dB}$ no FR-4 (perda de 35%) contra apenas $0{,}23\text{ dB}$ no Rogers (perda de 5%).
  • Conclusão Técnica: O substrato Rogers dissipa 8 vezes menos potência que o FR-4, viabilizando enlaces de alta fidelidade e circuitos integrados fotônicos/RF.

Exemplo 3: Efeito Pelicular em Trilha de Cobre a 5 GHz

Em uma placa de circuito impresso de alta velocidade operando em $f = 5\text{ GHz}$, as trilhas são de cobre eletrodepositado ($\sigma = 5{,}8 \times 10^7\text{ S/m}$, $\mu_r = 1$).

Solução:

  • Profundidade pelicular: $\delta = \frac{1}{\sqrt{\pi f \mu \sigma}} = \frac{1}{\sqrt{\pi \times 5 \times 10^9 \times 4\pi \times 10^{-7} \times 5{,}8 \times 10^7}} \approx 0{,}934\ \mu\text{m}$.
  • Resistência de superfície: $R_s = \frac{1}{\sigma \delta} \approx 18{,}4\text{ m}\Omega/\text{sq}$.
  • Critério de Projeto: Para confinar mais de 99% da densidade de corrente e potência ($z \ge 2{,}3\delta \approx 2{,}15\ \mu\text{m}$), espessuras industriais típicas de cobre de $0{,}5\text{ oz}$ ($17{,}5\ \mu\text{m}$) ou $1\text{ oz}$ ($35\ \mu\text{m}$) são largamente suficientes.
Slides Oficiais da Disciplina

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O Que Vem a Seguir? Bloco [MOD-REF]

Com a compreensão consolidada da propagação de ondas eletromagnéticas livres e em meios condutores, investigaremos no [MOD-REF] Reflexão e Refração de Ondas Eletromagnéticas o que ocorre quando a onda encontra uma descontinuidade física: coeficientes de reflexão e transmissão ($\Gamma, \tau$), equações de Fresnel para polarizações TE e TM, ângulo de Brewster, reflexão total com ondas evanescentes e transporte em filmes finos multicamadas.

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